REPENSANDO O SUBLIME NAS FRONTEIRAS ENTRE NATUREZA E TECNOLOGIA

Os diversos avanços nas pesquisas e realizações da tecnociência nos fazem repensar nas capacidades e limites do humano. Aos poucos as fronteiras – conceituais  –  que separavam natureza e cultura e que antes pareciam estáveis, vão sendo desgastadas.  Na tradição filosófica, o sublime foi abordado como uma relação entre natureza e reações estética.

Em um breve  resumo da evolução do entendimento do sublime, na Grécia clássica a arte deveria se aliar à natureza para chegar a perfeição, e estando o sublime sempre ligado à genialidade da mente humana, era a técnica ou habilidades que estavam em questão. Em Kant, o sublime natural é privilegiado em relação ao estético, entretanto ainda estamos no domínio da razão. sublime kantiano está estreitamente relacionado à grandeza incomensurável que só pode ser encontrada para além da forma, necessariamente através do juízo e das ideias humanas. O sublime natural se caracteriza pela admiração e temeridade em relação a uma potência que transcende a beleza, que é incomensurável ou terrível, mas que só é condizente a medida que estimula a imaginação humana. A esfera da natureza e a esfera do homem são separadas definitivamente uma da outra por esse raciocínio, mantendo uma relação hierárquica que coloca o saber humano como a potência superior.

Entretanto, as ansiedades das mudanças ambientais no século XX intensificaram a necessidade de controle daquilo que é natural e com isso formou-se um híbrido entre o que é cultural e o que é da ordem da natureza. O poder da natureza foi transferida para o poder da tecnologia. A partir das muitas inovações tecnológicas trazidas pela industrialização, grande parte das situações naturais, que sempre despertaram o sentimento do sublimecomeça a não mais possuir o aspecto do temeroso. Os objetos técnicos como produtos da razão eram em si mesmo sublimes.

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De certa forma, o desenvolvimento social do homem se confunde com os progressos tecnocientíficos e entretanto, os discursos sobre os objetos técnicos ainda são, em sua maioria, pessimistas e temerosos diante da possibilidade de autonomia da técnica e dissolução do sujeito contemporâneo. 

É relevante destacar alguns autores que criticam este pensamento temeroso e que buscou escravizar os objetos técnicos. Em busca de uma ontologia dos objetos técnicos, Gilbert Simondon – filósofo e tecnólogo francês – tem como objetivo fazer com que a humanidade compreenda a importância do desenvolvimento tecnológico e integre o objeto técnico como parte da cultura. É sintomático que a razão humana sempre torna o desconhecido objeto de temor, que é necessário escravizar para se ter o controle. A tecnologia que tinha o intuito de aumentar os limites do homem em relação ao poder da natureza, foi se tornando desconhecida a ponto de causar novos temores. Entretanto, a atual oposição entre cultura e máquina não é plausível, pois embora estes objetos possuem uma essência em si, ainda são frutos de criação racional humana.

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Mas há de fato uma grande contradição na nossa cultura que se desenvolve com a tecnociência: precisamos matar (e desmatar) para aperfeiçoar o nosso conhecimento da vida. A vitrine The Collector, do artista britânico Damien Hirst é interessante e me faz pensar em como as novas descobertas científicas e avanços da tecnologia vão tornando mais confundível o que é natural e o que é produzido em laboratório. Dentro da vitrine interna há um modelo animatrônico que veste uma roupa de cientista e examina uma borboleta por um microscópio. Ao seu redor há diversos materiais de laboratório, diversas plantas e flores de espécies variadas e borboletas vivas voam neste ambiente. A vitrine externa tem a parte inferior coberta por areia, conchas e alguns detritos. Oito quadros com borboletas coloridas se encontram pendurados na parede circundando a vitrine.

 

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The Collector, Damien Hirst, 2003-2004

Esta imagem parece representar o paradoxo das novas tecnologias: as descobertas científicas que, no geral, são conduzidas por instituições econômicas de países colonizadores, visam uma apropriação de plantas e animais transgênicos, produzem células e sementes geneticamente modificadas, genes sintéticos e genomas, e insere cada vez mais em nosso cotidiano produtos cada vez mais artificiais. As nações industrializada vão aos poucos se inserindo e controlando os recursos da biodiversidade que precisam para suas pesquisas nas áreas farmacêuticas, agroquímicas e de petróleo, como lembra o sociólogo Laymert Garcia dos Santos.

O autor aborda esta temática, expondo sobretudo a situação do Brasil, explicitando os métodos de predação do mercado sobre a biodiversidade local. É interessante que Laymert indica um caminho onde a natureza possa caminhar em conjunto com a tecnologia, e assim como Simondon, acredita que a tecnologia deve ser salva tanto quanto a biosociodiversidade. Para isto, é necessário que o homem se abstenha de sua ação predatória sobre a natureza e sobre a técnica e se realize em sua condição como “um agente informacional”.  

A informação só existe quando o emissor e o receptor do sinal formam um sistema, ela existe entre as duas metades de um sistema disparatado até então. A informação é essa aptidão de relacionar que fornece uma resolução, uma integração; é a singularidade real através da qual uma energia potencial se atualiza, através da qual uma incompatibilidade é superada; a informação é a instituição de uma comunicação que contém uma quantidade energética e uma qualidade estrutural. (LAYMERT, 2003, p 42)

Assim, o autor acredita que a salvação poderia ser uma operação técnica, onde o homem seria o agente de integração entre natureza e tecnologia. Reconhecer de modo adequado como a informação pode ser valiosa para a biotecnologia é compreender como é necessário preservar a diversidade. Como nos apresenta Robert Logan, as definições modernas de informação, perpassam pelas áreas da cibernética, pelos sistemas bióticos, pela teoria da informação, etc. Mas o que há de mais relevante é compreender que a informação e a organização estão relacionadas a vários aspectos da cultura humana, incluindo a linguagem, a tecnologia, a ciência. 

Se informação é a distinção (MacKay) ou a diferença (Batenson) que faz a diferença, e se não há distinção ou nenhuma diferença, então não pode haver informação alguma. (LOGAN, 2012, p 40)

Para MacKay e Batenson, informação tem tudo a ver com significado, é um processo.  As informações bióticas não são fixas, dependem do contexto. 

É preciso reconhecer o risco que //ao qual o ambiente onde vivemos está sendo submetido, caminhando para cenários catastróficos. Apesar todo impacto na política ambiental e também na geopolítica (por conta da exploração de territórios de nações mais pobres), poucas decisões são tomadas com participação da sociedade. 

Se estuda muito sobre como prolongar a vida através dos objetos técnicos, medicamentos, melhoramento genético, etc. Mas enquanto se destrói o próprio meio em que vivemos não há possibilidade de futuro. Não há possibilidade de diversidade. A homogeneidade e desordem não geram informação. A falta de informação não gera conhecimento. 

A máquina como elemento do conjunto técnico se torna aquilo que aumenta a quantidade de informação, aquilo que aumenta a neguentropia, aquilo que se opõe à degradação da energia: a máquina, obra de organização de informação, é, como a a vida e com a vida, aquilo que se opõe à desordem, ao nivelamento de todas as coisas que tende a privar o universo de poderes de mudança. (SIMONDON, 2008) 

O contraste entre as borboletas vivas dentro da vitrine e as borboletas mortas penduradas em um quadro nos mostra como ainda estamos em um universo onde as técnica não gera vida. O ser técnico está separado da cultura. O homem e a máquina estão postos de modo a matar o universo, desestabilizar o mundo. O ser técnico ainda é da ordem do sublime – desconhecido, inacessível, temido.

Bibliografia

LEMOS, Renata. De Ars Sublime Infinitis Minimo: sobre o sublime nanotecnológico. Tese de doutorado PUC – SP. São Paulo, 2012. Disponível em <http://ciret-transdisciplinarity.org/biblio/biblio_pdf/PhD_Renata%20Tavares_da_Silva_Lemos.pdf&gt; Acesso em 25/11/2015.

LOGAN, Robert K. Que é informação? Por que é relativista? E qual a sua relação com a materialidade, o significado e a organização? In.: O que é Informação? A propagação da organização na biosfera, na simbolosfera, na tecnosfera e na econosfera. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012. P. 23-65

SANTOS, Laymert Garcia dos. Tecnologia, natureza e a “redescoberta” do Brasil. In.: SANTOS, Laymert Garcia dos. Politizar as novas tecnologias: o impacto sociotécnico da informação digital e genética. São Paulo: Editora 34, 2003. P. 49-72

SIMONDON, Gilbert. Du mode d’existence des objets techniques. Paris: AubierMontaigne, 2008 [1958].

Sites

Obras do Damien Hirst:

http://www.damienhirst.com/the-collector

http://artandsciencemeeting.pl/?p=2314&lang=en  //ver normas

//tendo em vista as questões que coloca, sugiro o livro: 

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Ensaio de Antropologia Simétrica. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1999.

principalmente a questão dos híbridos.

disponível aqui 

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